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Florence Knoll: a inventora do visual do escritório modernista

Quem assistiu a série Mad Men, de Matthew Weiner, sabe que o escritório de meados do século se assemelhava a uma sala de estar, com sofás, poltronas e mesas dispostas de maneira a acolher interações espontâneas. O que poucos sabem, no entanto, é que esse ambiente em que homens dominavam teve sua estética definida em grande parte por uma mulher.

Florence Knoll, que um artigo de 1964 no New York Times descreveu como “a figura mais poderosa no campo do design moderno”, tinha sua forma de impor a si mesma onde seu desejo e as possibilidades lhe guiavam. Tendo aprendido arquitetura, sua área de formação, com alguns dos arquitetos mais importantes do século XX, como Mies van der Rohe e Eero Saarinen, ela achou que teria mais oportunidades de sobressair-se no design de interiores e de móveis.

Não é exagero afirmar que ela revolucionou essas áreas, articuladas pela sua atuação como empresária, co-proprietária da Knoll, uma das marcas de mobiliário que deram forma ao modernismo. Valendo-se de sua habilidade incrível em construir relações, Florence trabalhou com arquitetos e designers renomados em peças que definiram o visual corporativo, influenciando especificadores a optar pelo minimalismo que viera da Europa para os Estados Unidos junto com os membros e admiradores da Bauhaus.

De Marcel Breuer, em cujo escritório de arquitetura ela trabalhara, e Mies van der Rohe, de quem fora aluna, Florence conseguiu os direitos para produzir as icônicas poltronas Wassily e Barcelona, entre outros clássicos criados por eles. À Eero Saarinen, de quem tinha grande proximidade, ela pediu que projetasse “uma poltrona que fosse como uma cesta de travesseiros”, em que ela pudesse realmente se aconchegar. O resultado foi a icônica Womb, que se tornaria  sinônimo de conforto e estilo elevado.

Muito do trabalho de persuasão que foi levando à profunda transformação modernista dos interiores corporativos ocorria nos showrooms da Knoll, que exibiam um estilo lounge, ao invés de modelos de escritórios. Florence, que coordenava os projetos destes locais, orgulhava-se deles mais do que qualquer outra de suas criações. Em No Compromise: The Work of Florence Knoll, Ana Araújo resume:

“Da mesma forma que Mies, através das suas habilidades artísticas, transformou a estrutura de aço, em princípio enfadonha e monótona, numa característica icônica de arquitetura, Knoll transformou o escritório moderno igualmente entediante e padronizado numa imagem que acabou por ser considerada cool e sexy.”

Hoje, quando aspectos do conforto de ambientes residenciais têm sido utilizados para dar um toque mais humano a espaços corporativos, a revolução iniciada por Florence se mostra incrivelmente atual. De forma humilde, ela se referia às mesas, poltronas e sofás que criou como a “carne com batatas”, a parte mais básica, do portfólio da Knoll, deixando os louros para os mestres com quem trabalhou. Havia também neste comentário um bom tanto de sagacidade de quem foi diretora de design e presidente da empresa, e precisava administrar egos e vaidades. Ela deixava, assim, brilharem os solistas de sua orquestra, regendo com perfeição a sinfonia do design de interiores corporativo, dos Estados Unidos para o mundo.

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